Um ex profesor meu da universidade de Siena está fascinado com o “Sense of community” da Purdue University em Idiana – EUA, onde se encontra actualmente.
Diz que os professores lhe fizeram uma recepção pessoal, que há encontros e saídas semanais entre todos os alunos para “construir equipa” e que os estudantes americanos contribuem largamente para a integração dos estudantes estrangeiros.
Tudo muito bonito até ele mencionar que em Itália, nomeadamente em Siena, não seria assim.
SCUSA??? MA CHE CAZ**** DICI?
Quando o seu companheiro de quarto chinês lhe perguntar “O que é que queres que eu te roube do supermercado?”, como o meu room mate espanhol fazia, então sim, ele vai ter argumentos válidos para discutir a noção de comunidade no ambiente universitário de Siena.
Onde nos encontrávamos todos os dias e todas as noites e cada vez reagíamos com tanta felicidade como se não nos víssemos há anos. Sabíamos os nomes e nacionalidades de centenas de pessoas e, todos juntos, fazíamos viagens a sítios tão interessantes como Urbino. (Exactamente, o ponto é nunca ninguém ter ouvido falar de tal coisa).
Levava-se a casa quem já não se aguentasse em pé e convidava-se para jantar quando não cabia mais ninguém no T3 alugado e partilhado com 5.
Comunidade era fazer festas surpresa e chorar quando alguém se ia embora.
Comunidade é, passados 3 anos, continuar a saber os nomes e as nacionalidades dessas pessoas e lembrar todos os momentos com tanta claridade como se tivesse sido ontem.
E em relação ao suposto apartheid italianos – estudantes estrangeiros, eu não sei que raio de colegas é que ele teve mas os meus sempre me ajudaram com apontamentos e explicações e não se coibiram nada de me convidar para participar em eventos e projectos. Eu fui a actriz principal de um vídeo para a escola de Jazz de Siena!
E diciamoci la verità, não há espécie mais calorosa, acolhedora e ardentemente desejosa de proximidade que il ragazzo italiano!
Professores distantes? O Professor mais respeitado da Universidade dava-nos conselhos sobre a nossa vida amorosa, vinha jantar connosco e convidava-nos para debates em sua casa. E falava mal do Berlusconi nas aulas a cada 5 minutos.
Ele diz que na Purdue toda a gente compra a blusa da Universidade e que ele mesmo vai comprá-la e usá-la até a exaustão enquanto lá estiver. Para depois, no regresso a Itália, a abandonar numa gaveta escondida lá de casa.
Eu comprei uma blusa cor de rosa da Universidade de Siena e nunca a encafuei em nenhum móvel poeirento. Levei-a comigo para São Paulo, mantive-a no armário em Lisboa e, neste preciso momento, levo-a vestida pelo segundo Inverno consecutivo em Barcelona.
Evidentemente que já tem borboto, mas o orgulho ultrapassa a decadência têxtil.
Porque é um sentimento!
O sentimento de ter feito parte de uma verdadeira comunidade.
divendres, 20 / novembre / 2009
dijous, 19 / novembre / 2009
To unfriend
"Unfriend" just became the 2009 Word of the Year in the New Oxford American Dictionary. It's a verb, as in "You can unfriend people by clicking 'Remove from Friends' at the bottom of their profiles."
Então a palavra deste ano é “desamigar”, por assim dizer em português. Refere-se sobretudo à possibilidade de “desamigar” amigos nas redes sociais da internet, nomeadamente o facebook.
Mas qual é o antónimo de “to unfriend”?
O antónimo de “to unfriend”não é, porque não há. Só há “add a friend” cujo antónimo é “remove friend” – expressão antepassada da trendy e gloriosa unfriend.
A verdade é que fazer amigos no facebook passou a ser como jogar às quintas no facebook: aqui ponho umas batatas, aqui umas couves, agora planto rosas vermelhas no cantinho, ofereço uma vaca à vizinha e cada vez tenho mais cercas e tractores. Mentira, jogar às quintas no facebook é muito mais complexo do que fazer amigos no facebook. Para os amigos basta um click de “aceitar”. As quintas requerem todo um management de plantação rega e recolha senão as batatas ficam podres.
Como fazer amigos é fácil, há pessoas que têm 500, 1.000, 2.000 amigos! Dos quais conhecem 10% e dentro destes 10% houve muitos que só viram uma vez.
São portanto amigos no máximo sentido do termo, tal qual D’artagnan e os 3 mosqueteiros.
É bonito que toda a gente possa a ser amigo de toda a gente, mesmo sem se conhecerem. Porque, claro está, umas conversas pelo chat e já é como se conhecessem desde sempre.
Não, a sério, é giro isto de fazermos um revival dos anos 70. Somos a geração peace and love online! Toda a gente é amigo de toda a gente. Menos dos pais, evidentemente.
Ser amigo do fulano que é amigo da amiga do amigo que no outro dia estava na discoteca é compreensível, mas ter o pai ou a avó na lista dos amigos já é um pouco exagerado. O pai! A Avó! O que é que eles pensam que lhes dá o direito de serem nossos amigos no facebook? Estes parentes distantes têm cada uma…
E olhem que eu no facebook sou amiga dos meus chefes, dos meus antigos treinadores de basket, do meu tio e do meu ex Professor e Coordenador de área da Universidade. Pois é, sou uma radical! E mesmo assim ainda não estou preparada para ser amiga do meu pai.
Mas o grande paradoxo é que adicionar amigos no facebook não significa absolutamente nada. Como já vimos anteriormente neste texto, não é sequer garantia de que as pessoas se reconheçam caso se cruzem um dia na rua. Não obstante, eliminar amigos, a tal unfriend, significa que acabou tudo. Qualquer que fosse o tipo de relação que havia ali, se chegou a esse ponto, então já não existe.
“To Unfriend” alguém é um statement explosivo de ruptura. É para os namorados que se chateiam e para os amigos que discutem a sério. Para as pessoas que não se querem voltar a ver nunca mais. “Eles já não são amigos no facebook” é uma frase que gera automaticamente um “aah” constrangedor e consciente de que algo grave aconteceu. Enquanto que “São amigos no facebook” não provoca qualquer tipo de emoção.
Talvez seja por isso que “unfriend” não tem antónimo.
Seja como for, isto de clicar para adicionar e remover amigos, a meu ver, despersonaliza um bocadinho as amizades. Um bocadinho só…
Pela perspectiva ambiental interna é mais sustentável, sem dúvida. "Unfriend" representa uma poupança de energia individual a nivel das galndulas salivares sem precedentes, posto que elimina qualquer necessidade de dizer seja o que for. Uma pessoa apagada dos amigos de outra assimila rapidamente a mensagem.
Mas eu não sei, acho que nos 70’s a malta se divertia mais!
Então a palavra deste ano é “desamigar”, por assim dizer em português. Refere-se sobretudo à possibilidade de “desamigar” amigos nas redes sociais da internet, nomeadamente o facebook.
Mas qual é o antónimo de “to unfriend”?
O antónimo de “to unfriend”não é, porque não há. Só há “add a friend” cujo antónimo é “remove friend” – expressão antepassada da trendy e gloriosa unfriend.
A verdade é que fazer amigos no facebook passou a ser como jogar às quintas no facebook: aqui ponho umas batatas, aqui umas couves, agora planto rosas vermelhas no cantinho, ofereço uma vaca à vizinha e cada vez tenho mais cercas e tractores. Mentira, jogar às quintas no facebook é muito mais complexo do que fazer amigos no facebook. Para os amigos basta um click de “aceitar”. As quintas requerem todo um management de plantação rega e recolha senão as batatas ficam podres.
Como fazer amigos é fácil, há pessoas que têm 500, 1.000, 2.000 amigos! Dos quais conhecem 10% e dentro destes 10% houve muitos que só viram uma vez.
São portanto amigos no máximo sentido do termo, tal qual D’artagnan e os 3 mosqueteiros.
É bonito que toda a gente possa a ser amigo de toda a gente, mesmo sem se conhecerem. Porque, claro está, umas conversas pelo chat e já é como se conhecessem desde sempre.
Não, a sério, é giro isto de fazermos um revival dos anos 70. Somos a geração peace and love online! Toda a gente é amigo de toda a gente. Menos dos pais, evidentemente.
Ser amigo do fulano que é amigo da amiga do amigo que no outro dia estava na discoteca é compreensível, mas ter o pai ou a avó na lista dos amigos já é um pouco exagerado. O pai! A Avó! O que é que eles pensam que lhes dá o direito de serem nossos amigos no facebook? Estes parentes distantes têm cada uma…
E olhem que eu no facebook sou amiga dos meus chefes, dos meus antigos treinadores de basket, do meu tio e do meu ex Professor e Coordenador de área da Universidade. Pois é, sou uma radical! E mesmo assim ainda não estou preparada para ser amiga do meu pai.
Mas o grande paradoxo é que adicionar amigos no facebook não significa absolutamente nada. Como já vimos anteriormente neste texto, não é sequer garantia de que as pessoas se reconheçam caso se cruzem um dia na rua. Não obstante, eliminar amigos, a tal unfriend, significa que acabou tudo. Qualquer que fosse o tipo de relação que havia ali, se chegou a esse ponto, então já não existe.
“To Unfriend” alguém é um statement explosivo de ruptura. É para os namorados que se chateiam e para os amigos que discutem a sério. Para as pessoas que não se querem voltar a ver nunca mais. “Eles já não são amigos no facebook” é uma frase que gera automaticamente um “aah” constrangedor e consciente de que algo grave aconteceu. Enquanto que “São amigos no facebook” não provoca qualquer tipo de emoção.
Talvez seja por isso que “unfriend” não tem antónimo.
Seja como for, isto de clicar para adicionar e remover amigos, a meu ver, despersonaliza um bocadinho as amizades. Um bocadinho só…
Pela perspectiva ambiental interna é mais sustentável, sem dúvida. "Unfriend" representa uma poupança de energia individual a nivel das galndulas salivares sem precedentes, posto que elimina qualquer necessidade de dizer seja o que for. Uma pessoa apagada dos amigos de outra assimila rapidamente a mensagem.
Mas eu não sei, acho que nos 70’s a malta se divertia mais!
dimarts, 17 / novembre / 2009
Demasiado exigentes
Criança de 8 anos – Tens namorado?
Rapariga de 23 anos – Não.
– Porquêêêê?
- Porque não há ninguém que eu goste assim muito para ser meu namorado.
- Está ali o Ibrahim! - (outra criança de 8 anos)
- Mas o Ibrahim é muito pequenino.
- Uhm… Então há o meu irmão ele é mais alto! - (melhorou bastante, criança de 12 anos).
- Não, não é por causa do tamanho. È que eles são muito novos para mim.
- Mas tens ali o Sergi. – (o Sergi é mais alto e mais velho, mas não demasiado velho, da idade correspondente. O match perfeito portanto).
- Aaah… também não…
A criança de 8 anos fez o melhor que pode para satisfazer exaustivamente os requisitos constantemente colocados como obstáculos pela rapariga de 23 anos. Insistente, com boa vontade, perspicaz na assimilação das qualidades necessárias e lógico no raciocino. Louvável o esforço infantil.
Evidentemente arranjar namorado não é complicado. Está claro que o que não faltam são candidatos!
Mas com raparigas de 20 e poucos anos tão exigentes… como é que não havemos de estar as 3 solteiras cá em casa?
Rapariga de 23 anos – Não.
– Porquêêêê?
- Porque não há ninguém que eu goste assim muito para ser meu namorado.
- Está ali o Ibrahim! - (outra criança de 8 anos)
- Mas o Ibrahim é muito pequenino.
- Uhm… Então há o meu irmão ele é mais alto! - (melhorou bastante, criança de 12 anos).
- Não, não é por causa do tamanho. È que eles são muito novos para mim.
- Mas tens ali o Sergi. – (o Sergi é mais alto e mais velho, mas não demasiado velho, da idade correspondente. O match perfeito portanto).
- Aaah… também não…
A criança de 8 anos fez o melhor que pode para satisfazer exaustivamente os requisitos constantemente colocados como obstáculos pela rapariga de 23 anos. Insistente, com boa vontade, perspicaz na assimilação das qualidades necessárias e lógico no raciocino. Louvável o esforço infantil.
Evidentemente arranjar namorado não é complicado. Está claro que o que não faltam são candidatos!
Mas com raparigas de 20 e poucos anos tão exigentes… como é que não havemos de estar as 3 solteiras cá em casa?
diumenge, 8 / novembre / 2009
ha ha ha...
Eu tenho um problema com as anedotas. À parte a discordância óbvia e por todos conformadamente encoberta entre a forma de pronunciar e a forma de escrever anedotas. Ou seja, andotas.
(Mas porquê? Porquê??? Como se o “e” fosse um dos afilhados do Primeiro Ministro que só está ali para enfeitar e temos todos de levar com ele e calar)!
Emendo, tenho 2 problemas com as anedotas.
Vamos ao segundo: a expectativa.
Quando alguém conta uma anedota só nos restam duas opções: rir ou fingir que rimos. Porque se não demonstrarmos um esboço de graça ou passamos por intelectualmente limitados “Não percebeste?” ou por rudemente mal educados. Como quem não bate palmas depois de um grande espectáculo. Porque é isso que os contadores de anedotas esperam! Um alvoroço de gargalhadas e aplausos após o seu hercúleo esforço para nos animar.
É simpático contar anedotas, a intenção é boa e tudo. Mas a mim dá-me stress! É a obrigação de estar a ouvir com a máxima atenção algo que, provavelmente, é demasiado longo e não me interessa ou cuja “piada” a meio já é previsível e evidente. Mais a obrigação de achar graça independentemente de que tenha tanta graça como dor de barriga ao pequeno-almoço.
Porque quem não acha graça não tem piada, é chato e quando dá por ele já foi exilado como um outsider.
Ora eu não, sinceramente, não acho graça às anedotas , pronto, já disse! Desterrem-me se quiserem!
É que não consigo, transcende-me. Fico nervosa! Aterrorizam-me! Mal ouço “vou contar uma andota” começam logo as minhas entranhas a entrar em revelia, o pânico à assomar-se-me no rosto!
Ainda assim, quando o contador é de cerimónia, forço aquele sorriso que quer tanto sair como os noruegueses no inverno e acompanho-o de um tímido ah ah.
Mas por este meu esforço, verdadeiramente hercúleo, ninguém bate palmas… pior que isso, 99,9% das vezes contam outra! Porque há sempre uma “ainda melhor”!
Mal posso esperar...
(Mas porquê? Porquê??? Como se o “e” fosse um dos afilhados do Primeiro Ministro que só está ali para enfeitar e temos todos de levar com ele e calar)!
Emendo, tenho 2 problemas com as anedotas.
Vamos ao segundo: a expectativa.
Quando alguém conta uma anedota só nos restam duas opções: rir ou fingir que rimos. Porque se não demonstrarmos um esboço de graça ou passamos por intelectualmente limitados “Não percebeste?” ou por rudemente mal educados. Como quem não bate palmas depois de um grande espectáculo. Porque é isso que os contadores de anedotas esperam! Um alvoroço de gargalhadas e aplausos após o seu hercúleo esforço para nos animar.
É simpático contar anedotas, a intenção é boa e tudo. Mas a mim dá-me stress! É a obrigação de estar a ouvir com a máxima atenção algo que, provavelmente, é demasiado longo e não me interessa ou cuja “piada” a meio já é previsível e evidente. Mais a obrigação de achar graça independentemente de que tenha tanta graça como dor de barriga ao pequeno-almoço.
Porque quem não acha graça não tem piada, é chato e quando dá por ele já foi exilado como um outsider.
Ora eu não, sinceramente, não acho graça às anedotas , pronto, já disse! Desterrem-me se quiserem!
É que não consigo, transcende-me. Fico nervosa! Aterrorizam-me! Mal ouço “vou contar uma andota” começam logo as minhas entranhas a entrar em revelia, o pânico à assomar-se-me no rosto!
Ainda assim, quando o contador é de cerimónia, forço aquele sorriso que quer tanto sair como os noruegueses no inverno e acompanho-o de um tímido ah ah.
Mas por este meu esforço, verdadeiramente hercúleo, ninguém bate palmas… pior que isso, 99,9% das vezes contam outra! Porque há sempre uma “ainda melhor”!
Mal posso esperar...
dijous, 5 / novembre / 2009
Para a Neuza, porque gostamos de ti!
Como é que se dizem coisas delicadas sem partir a boa vontade e nobre ilusão de outra pessoa?
Quem é que nunca viu uma amiga a engordar desalmadamente ou uma pessoa querida com um roupa lastimável? Quem é que nunca recebeu uma prenda horrenda (oferecida com todo o amor e carinho) por parte do namorado, dos pais, etc?
E quando as ideias geniais que nos contam, em busca de apoio e incentivo, são o correspondente a um passo em frente desde o alto do Cabo da Roca?
A sinceridade é primordial mas extremamente difícil de dosear. Está cientificamente provado que o excesso de sinceridade pode resultar em terríveis efeitos colaterais irreversíveis.
E hoje este é o tema pendente cá em casa. Desde que a Neuza, após unânime acordo de que queriamos incenso cá em casa, chegou contente e triunfante com o incenso que comprou na lojinha do chinês. É de morango. A Rita diz que se vê logo que não podia ser bom porque nada que queima pode cheirar a fruta (mas pode cheirar a rosas). O facto é que não cheira nem a fruta nem a flores. Cheira a gelatina estragada (de morango vá, demos-lhe isso). E esta manhã ergueram-se intoxicantes nuvens de fumo pela casa, fazendo pulular o referido odor por todas as assoalhadas. Não, não é que cheire mal. Só não cheira bem.
Duas tácticas distintas e subtis foram utilizadas para tentar passar a mensagem de descontentamento:
1 – a táctica do humor (o riso atenua os efeitos depressivos) – “Oh Neuza não havia um suporte de incenso ainda mais feio que este?”
“Não, o outro que havia era com folhas de Canabis e vinha com incenso de Canabis”.
Argumento incontornável. Mudança de táctica.
2 – a táctica da indução - o vulgo dar a entender - (se a pessoa chegar à conclusão por si mesma qualquer tipo de ressentimento será dirigido a ela própria e não a terceiros) – “Oh Neuza há uma nuvem de fumo a elevar-se pela sala…”
“Sim. E então?”
Conclusão não concluída.
De modo que após duas tentativas frustradas e ponderada meditação, decidimos que vamos ter mesmo de lhe dizer, por exemplo assim “Ai Neuza, afinal lembrei-me agora que eu odeio incenso! È que não suporto mesmo”. Realce para a importância da forma que envolve o conteúdo da mensagem: frontal e sincera. A forma é tudo! Já assim pensavam Wertheimer e Khöler quando inventaram a Psicologia da Gestalt (forma em alemão). Pergunto-me se também se terão debatido com questões profundas como a da presente análise.
Mesmo assim achámos que ainda não era a forma ideal. Trata-se de uma das nossas melhores amigas, com quem vivemos juntas e felizes e partilhamos segredos e intimidades!
Merece pois uma comunicação mais pessoal e amorosa, sobretudo mais íntima!
Então decidi escrever este post.
Porque eventualmente ela vai ler e assim assimilar o quanto gostamos dela e o quanto não gostamos do incenso de morango.
Resta esperar que isso seja antes do pacote de incenso acabar…
Quem é que nunca viu uma amiga a engordar desalmadamente ou uma pessoa querida com um roupa lastimável? Quem é que nunca recebeu uma prenda horrenda (oferecida com todo o amor e carinho) por parte do namorado, dos pais, etc?
E quando as ideias geniais que nos contam, em busca de apoio e incentivo, são o correspondente a um passo em frente desde o alto do Cabo da Roca?
A sinceridade é primordial mas extremamente difícil de dosear. Está cientificamente provado que o excesso de sinceridade pode resultar em terríveis efeitos colaterais irreversíveis.
E hoje este é o tema pendente cá em casa. Desde que a Neuza, após unânime acordo de que queriamos incenso cá em casa, chegou contente e triunfante com o incenso que comprou na lojinha do chinês. É de morango. A Rita diz que se vê logo que não podia ser bom porque nada que queima pode cheirar a fruta (mas pode cheirar a rosas). O facto é que não cheira nem a fruta nem a flores. Cheira a gelatina estragada (de morango vá, demos-lhe isso). E esta manhã ergueram-se intoxicantes nuvens de fumo pela casa, fazendo pulular o referido odor por todas as assoalhadas. Não, não é que cheire mal. Só não cheira bem.
Duas tácticas distintas e subtis foram utilizadas para tentar passar a mensagem de descontentamento:
1 – a táctica do humor (o riso atenua os efeitos depressivos) – “Oh Neuza não havia um suporte de incenso ainda mais feio que este?”
“Não, o outro que havia era com folhas de Canabis e vinha com incenso de Canabis”.
Argumento incontornável. Mudança de táctica.
2 – a táctica da indução - o vulgo dar a entender - (se a pessoa chegar à conclusão por si mesma qualquer tipo de ressentimento será dirigido a ela própria e não a terceiros) – “Oh Neuza há uma nuvem de fumo a elevar-se pela sala…”
“Sim. E então?”
Conclusão não concluída.
De modo que após duas tentativas frustradas e ponderada meditação, decidimos que vamos ter mesmo de lhe dizer, por exemplo assim “Ai Neuza, afinal lembrei-me agora que eu odeio incenso! È que não suporto mesmo”. Realce para a importância da forma que envolve o conteúdo da mensagem: frontal e sincera. A forma é tudo! Já assim pensavam Wertheimer e Khöler quando inventaram a Psicologia da Gestalt (forma em alemão). Pergunto-me se também se terão debatido com questões profundas como a da presente análise.
Mesmo assim achámos que ainda não era a forma ideal. Trata-se de uma das nossas melhores amigas, com quem vivemos juntas e felizes e partilhamos segredos e intimidades!
Merece pois uma comunicação mais pessoal e amorosa, sobretudo mais íntima!
Então decidi escrever este post.
Porque eventualmente ela vai ler e assim assimilar o quanto gostamos dela e o quanto não gostamos do incenso de morango.
Resta esperar que isso seja antes do pacote de incenso acabar…
dilluns, 2 / novembre / 2009
Um susto de pronúncia
A tartaruga ninja disse olá. Coitada, já não podia com a carapaça. O robin e o batman pediram uma tesoura emprestada enquanto o Ozzy osbourne subia e descia as escadas. O Indiana Jones estava mais tranquilo que o habitual e a Branca de Neve resolveu beber. Não pode ser pior que uma maçã envenenada certo?
E de qualquer modo havia enfermeiras de plantão e freiras até, que dá sempre jeito, sabe Deus quando vai ser preciso chamar por Ele.
A bailarina estava a dançar house no meio das bruxas e do Conde Drácula.
As gatas andavam à solta pelos passeios, porque isso dos telhados dá vertigens.
Também havia muita gente estranha, até o polícia dos anos 80 comentou.
Mas o que foi mesmo muito chato foi o espantalho, deixou feno por todo lado! Que inconveniente!
Depois houve muita gente, de diferentes faixas etárias e nacionalidades, que perguntou o que é que se passava. Se havia festa, se era em todo o lado e porquê. Pareciam muito confusos…
E então eu pergunto-me, o que é que estas pessoas pensam quando passam pelas montras decoradas com abóboras e teias de aranha? Que se come abóbora e que as aranhas proliferam no Outono? Será que acham mesmo que os pijamas da Oysho têm morcegos porque é o novo padrão da moda?
Poderá ser que nunca tenham repararado nas dezenas de lojas que vendem disfarces de diabo cada vez que se aproxima o 31 de Outubro?
“Hoje é o Halloween” respondo condescendente.
Mas quando algum espanhol retorque “ É o quê? É o quê? Ahh! È o rrrálôin!” aí meus amigos, já não há condescendência possível.
E de qualquer modo havia enfermeiras de plantão e freiras até, que dá sempre jeito, sabe Deus quando vai ser preciso chamar por Ele.
A bailarina estava a dançar house no meio das bruxas e do Conde Drácula.
As gatas andavam à solta pelos passeios, porque isso dos telhados dá vertigens.
Também havia muita gente estranha, até o polícia dos anos 80 comentou.
Mas o que foi mesmo muito chato foi o espantalho, deixou feno por todo lado! Que inconveniente!
Depois houve muita gente, de diferentes faixas etárias e nacionalidades, que perguntou o que é que se passava. Se havia festa, se era em todo o lado e porquê. Pareciam muito confusos…
E então eu pergunto-me, o que é que estas pessoas pensam quando passam pelas montras decoradas com abóboras e teias de aranha? Que se come abóbora e que as aranhas proliferam no Outono? Será que acham mesmo que os pijamas da Oysho têm morcegos porque é o novo padrão da moda?
Poderá ser que nunca tenham repararado nas dezenas de lojas que vendem disfarces de diabo cada vez que se aproxima o 31 de Outubro?
“Hoje é o Halloween” respondo condescendente.
Mas quando algum espanhol retorque “ É o quê? É o quê? Ahh! È o rrrálôin!” aí meus amigos, já não há condescendência possível.
diumenge, 1 / novembre / 2009
Integração integrante
Em Barcelona há várias instituições sem fins lucrativos que promovem a integração de imigrantes extra-comunitários. Recentemente decidi voluntariar-me numa delas
que, de momento, trabalha principalmente com crianças marroquinas.
Não poucas vezes já me perguntaram se as ia ensinar a vender cerveja na rua ou se as elucidaria sobre o negócio do contrabando.
Piadas inocentes cujo teor nunca passará nos sábios conhecimentos que a instituição transmite.
Tirando a vez em que a Neuza, vencida pela supremacia energética de rebentos marroquinos com 5-7 anos de vida, começou a gritar-lhes:
“Parados! Parados!”.
Parado em espanhol significa desempregado.
As crianças não tomaram como insulto, tendo prosseguido afincadamente com as suas corridas desenfreadas.
A Neuza apercebeu-se do erro.
De facto, é estranho ter pessoas não espanholas e completamente iletradas em catalão, que ainda por cima são péssimas em trabalhos manuais e estão acomodadas à calculadora do telemóvel, a desenvolver este tipo de actividade, que também engloba apoiar os estudos e ajudar nos trabalhos de casa. Por outro lado, o facto de haver voluntários estrangeiros torna o processo muito mais produtivo e enriquecedor: nós contribuímos para a integração deles e eles para a nossa!
que, de momento, trabalha principalmente com crianças marroquinas.
Não poucas vezes já me perguntaram se as ia ensinar a vender cerveja na rua ou se as elucidaria sobre o negócio do contrabando.
Piadas inocentes cujo teor nunca passará nos sábios conhecimentos que a instituição transmite.
Tirando a vez em que a Neuza, vencida pela supremacia energética de rebentos marroquinos com 5-7 anos de vida, começou a gritar-lhes:
“Parados! Parados!”.
Parado em espanhol significa desempregado.
As crianças não tomaram como insulto, tendo prosseguido afincadamente com as suas corridas desenfreadas.
A Neuza apercebeu-se do erro.
De facto, é estranho ter pessoas não espanholas e completamente iletradas em catalão, que ainda por cima são péssimas em trabalhos manuais e estão acomodadas à calculadora do telemóvel, a desenvolver este tipo de actividade, que também engloba apoiar os estudos e ajudar nos trabalhos de casa. Por outro lado, o facto de haver voluntários estrangeiros torna o processo muito mais produtivo e enriquecedor: nós contribuímos para a integração deles e eles para a nossa!
dimarts, 20 / octubre / 2009
A economia do romantismo
Pergunto-me se o amor também estará em crise. Se os beijos vão caindo a pique na bolsa. Se há cada vez mais mãos dadas no desemprego e se o preço dos olhares amantes também vai ser afectado.
Parece que o número de solteiros já está a desequilibrar a balança comercial e que a dívida pública gerada pelos divórcios é intransponível.
Contudo, li em qualquer lado de referencia que, segundo os especialistas, a grande preocupação é a questão do romantismo.
Parece que o gap entre os românticos e os não românticos vai triplicar nos próximos anos e que o romantismo médio per capita está cada vez mais deteriorado. Sem falar nos empréstimos de romantismo a crédito aos filmes lamechas.
De acordo com a mesma fonte, o PIB das cartas de amor é inferior à media da União Europeia e o Banco Central Europeu está a estudar a hipótese de um empréstimo mas como não têm papel perfumado é complicado.
As pessoas acabam por buscar soluções mais económicas como conhecer-se e namorar pelo facebook o que, consequentemente, tem um impacto bastante negativo na indústria do calçado, das floristas e dos chocolates.
Mas mesmo perante um cenário tão catalítico como este se afigura, eu sou uma optimista.
Afinal, ainda há pessoas que escrevem cartas de amor, só que a maioria as envia por mail e assim não demoram 3 semanas a chegar ao destinatário.
Também tem de haver pessoas a oferecer flores, caso contrário, os indianos das rosas ambulantes não proliferariam como bem se vê.
E há crianças de 6 anos que já querem dar beijinhos e há mãos dadas de velhinhos.
Os chocolates estão a entrar na sua temporada alta, as surpresas conseguem manter-se o ano todo. E, convenhamos, isso das serenatas ia incomodar os vizinhos e depois iam reclamar na reunião do condomínio.
Que já não haja paladinos do romantismo como o Bocage é pena. Mas também é verdade que aquilo era uma leviandade de angustias e dores, ninguém sabe ao certo quantas vezes é que ele morreu de amores.
Eu acho que o que mudou foi a taxa de câmbio do romantismo e as pessoas ainda não assimilaram os novos valores. Um pouco como não saber quanto são 50.000€ em escudos.
Porque é romântico comprar voos da Ryan Air para fazer surpresas à pessoa amada. É romântico dedicar vídeos no youtube. É romântico ficar a noite toda a conversar na janelinha minúscula do facebook (é quase o mesmo que acontecia ao Fernando Pessoa quando ele passava a noite inteira, de pé, a escrever poemas em torrente). É romântico mandar beijinhos à câmara Web enquanto se fala pelo skype. É romântico pôr fotos e declarações nas redes sociais e nos blogs. É romântico deixar os filhos com os avós para ir ao cinema ou ir passear no fim-de-semana. É romântico ir ao supermercado comprar objectos de higiene pessoal da pessoa amada e saber os ingredientes exóticos do shampoo que ela usa. É romântico oferecer uma bimby!
E, mais raro mas extremamente romântico, é ceder o lugar num transporte público.
De modo que se o amor estiver mesmo em crise, eu sou apologista de uma possível recuperação.
Porque o romantismo está em alta, parecendo que não.
Parece que o número de solteiros já está a desequilibrar a balança comercial e que a dívida pública gerada pelos divórcios é intransponível.
Contudo, li em qualquer lado de referencia que, segundo os especialistas, a grande preocupação é a questão do romantismo.
Parece que o gap entre os românticos e os não românticos vai triplicar nos próximos anos e que o romantismo médio per capita está cada vez mais deteriorado. Sem falar nos empréstimos de romantismo a crédito aos filmes lamechas.
De acordo com a mesma fonte, o PIB das cartas de amor é inferior à media da União Europeia e o Banco Central Europeu está a estudar a hipótese de um empréstimo mas como não têm papel perfumado é complicado.
As pessoas acabam por buscar soluções mais económicas como conhecer-se e namorar pelo facebook o que, consequentemente, tem um impacto bastante negativo na indústria do calçado, das floristas e dos chocolates.
Mas mesmo perante um cenário tão catalítico como este se afigura, eu sou uma optimista.
Afinal, ainda há pessoas que escrevem cartas de amor, só que a maioria as envia por mail e assim não demoram 3 semanas a chegar ao destinatário.
Também tem de haver pessoas a oferecer flores, caso contrário, os indianos das rosas ambulantes não proliferariam como bem se vê.
E há crianças de 6 anos que já querem dar beijinhos e há mãos dadas de velhinhos.
Os chocolates estão a entrar na sua temporada alta, as surpresas conseguem manter-se o ano todo. E, convenhamos, isso das serenatas ia incomodar os vizinhos e depois iam reclamar na reunião do condomínio.
Que já não haja paladinos do romantismo como o Bocage é pena. Mas também é verdade que aquilo era uma leviandade de angustias e dores, ninguém sabe ao certo quantas vezes é que ele morreu de amores.
Eu acho que o que mudou foi a taxa de câmbio do romantismo e as pessoas ainda não assimilaram os novos valores. Um pouco como não saber quanto são 50.000€ em escudos.
Porque é romântico comprar voos da Ryan Air para fazer surpresas à pessoa amada. É romântico dedicar vídeos no youtube. É romântico ficar a noite toda a conversar na janelinha minúscula do facebook (é quase o mesmo que acontecia ao Fernando Pessoa quando ele passava a noite inteira, de pé, a escrever poemas em torrente). É romântico mandar beijinhos à câmara Web enquanto se fala pelo skype. É romântico pôr fotos e declarações nas redes sociais e nos blogs. É romântico deixar os filhos com os avós para ir ao cinema ou ir passear no fim-de-semana. É romântico ir ao supermercado comprar objectos de higiene pessoal da pessoa amada e saber os ingredientes exóticos do shampoo que ela usa. É romântico oferecer uma bimby!
E, mais raro mas extremamente romântico, é ceder o lugar num transporte público.
De modo que se o amor estiver mesmo em crise, eu sou apologista de uma possível recuperação.
Porque o romantismo está em alta, parecendo que não.
divendres, 16 / octubre / 2009
O dia em que o chefe a chamou
Quando o chefe pediu para conversarem ela não suspeitou de nada. A sala de reuniões estava ocupada pelo que se intrometeu o convencional “queres um café?” antes da conversa. Sim, era normal, eles estão sempre todos a beber café. Na cozinha estava o dos músculos e das dietas de hidratos de carbono a comer uma pratada de massa às 10.30 da manhã. Diz que lhe dá um prazer tremendo e que se tem de controlar até ao último apelo do estômago no Verão. Porque é quando deixa de ir ao ginásio. Agora que voltou à sua actividade física pode finalmente resgatar o delicioso hábito de comer doses generosas de esparguete ou de arroz a meio da manhã. Quando o resto das pessoas come uma sandes ou, precisamente, bebe um café.
“Mas tu participas em competições ou isso é só para exibir?” – perguntou o chefe .
“Não, não, eu faço isto por mim!” – respondeu ele, orgulhoso e não altruísta.
È justo, eu por mim compro chocolates ou, desde a intoxicação alimentar com a Nutella, latas de leite condensado para comer à colher.
Entretanto, o chefe tinha pousado as folhas numa mesa, com especial atenção para que ficassem viradas para baixo, ocultando o seu conteúdo. Então ela começou a ficar receosa. Porque será que ele não queria que ela visse as folhas?
A sala de reuniões continuava ocupada e o chefe considerou que a cozinha não era confidencial o suficiente. Dirigiram-se a outra divisão, mais recatada. Por essa altura começaram-lhe a escorrer alguns suores frios.
“Então como é que vai o trabalho?” – inquiriu o chefe. Os olhos fixados nela, dissipando-se das palavras, como se aquela pergunta fosse só um or d’oeuvre para uma enorme repreensão. Aqui os suores já lhe escorriam por todo o lado. O que é que ela tinha feito? Seria por utilizar a internet durante o expediente? Ou seria pelas fotocópias? É que no novo open space ela ainda não tinha imprimido nada mas no antigo imprimiu as aventuras completas do Sherlock Holmes!
“Vai bem” – respondeu ela, com um sorriso trémulo e, no entanto, o mais confiante que os seus lábios conseguiram esboçar.
O chefe sorriu-lhe de volta, já estava à espera daquela resposta. Olhou para o molhe de folhas e hesitou um momento. Era agora! Era agora! O que quer que fosse ia ser naquele instante.
E então ela viu. Viu para pasmo e gáudio em simultâneo e paralelo, folhas da Universidade.
“Tenho que fazer estes exercícios para o mestrado mas não sei como é que se faz, tens de me ajudar!”. Ufa! As fotocópias do Sherlock Holmes continuavam no anonimato!
Desta vez os seus lábios contraíram-se num imenso esganar misto de riso e surpresa, que por limitações técnicas das onomatopeias não me é possível reproduzir aqui.
Ali estava ela, recuperando lentamente a tez do rosto, com o chefe diante de si, suplicando que o deixasse copiar um trabalho do mestrado. E depois perguntou:
“Mas o quê? Pensavas que era alguma coisa de mal?”
“Mas tu participas em competições ou isso é só para exibir?” – perguntou o chefe .
“Não, não, eu faço isto por mim!” – respondeu ele, orgulhoso e não altruísta.
È justo, eu por mim compro chocolates ou, desde a intoxicação alimentar com a Nutella, latas de leite condensado para comer à colher.
Entretanto, o chefe tinha pousado as folhas numa mesa, com especial atenção para que ficassem viradas para baixo, ocultando o seu conteúdo. Então ela começou a ficar receosa. Porque será que ele não queria que ela visse as folhas?
A sala de reuniões continuava ocupada e o chefe considerou que a cozinha não era confidencial o suficiente. Dirigiram-se a outra divisão, mais recatada. Por essa altura começaram-lhe a escorrer alguns suores frios.
“Então como é que vai o trabalho?” – inquiriu o chefe. Os olhos fixados nela, dissipando-se das palavras, como se aquela pergunta fosse só um or d’oeuvre para uma enorme repreensão. Aqui os suores já lhe escorriam por todo o lado. O que é que ela tinha feito? Seria por utilizar a internet durante o expediente? Ou seria pelas fotocópias? É que no novo open space ela ainda não tinha imprimido nada mas no antigo imprimiu as aventuras completas do Sherlock Holmes!
“Vai bem” – respondeu ela, com um sorriso trémulo e, no entanto, o mais confiante que os seus lábios conseguiram esboçar.
O chefe sorriu-lhe de volta, já estava à espera daquela resposta. Olhou para o molhe de folhas e hesitou um momento. Era agora! Era agora! O que quer que fosse ia ser naquele instante.
E então ela viu. Viu para pasmo e gáudio em simultâneo e paralelo, folhas da Universidade.
“Tenho que fazer estes exercícios para o mestrado mas não sei como é que se faz, tens de me ajudar!”. Ufa! As fotocópias do Sherlock Holmes continuavam no anonimato!
Desta vez os seus lábios contraíram-se num imenso esganar misto de riso e surpresa, que por limitações técnicas das onomatopeias não me é possível reproduzir aqui.
Ali estava ela, recuperando lentamente a tez do rosto, com o chefe diante de si, suplicando que o deixasse copiar um trabalho do mestrado. E depois perguntou:
“Mas o quê? Pensavas que era alguma coisa de mal?”
Denmark!Denmark!
Foi fácil perceber que o bar ia esvaziar quando fosse o jogo de Portugal. Em cores fluorescentes e fonte desproporcionalmente grande brilhavam os nomes ENGLAND e DENMARK – SWEDEN. No fim do quadro escuro, em tons neutros e com cerca de 1 milímetro quadrado de espessura por letra, aparecia o pequenino Portugal – Hungria.
Mas enquanto a nossa selecção não jogava, a Dinamarca jogava por ela e nós apoiávamo-la fervorosamente, de pé, fora do bar, observando o ecrã com atenção.
Não sabemos uma única palavra em dinamarquês, nem o nome de nenhum jogador para poder impressionar. Não temos lá nenhum amigo nem nunca visitámos o país. Mas somos tão altruístas que pulámos, esperneámos e celebrámos o golo dos dinamarqueses tão efusivamente como se fossemos genuinamente de Copenhaga. E esprememos os nervos até ao último segundo da partida, não se fossem os suecos lembrar de marcar nos descontos.
Perdemos o hino de Portugal, mas ganhámos uma mesa só para nós diante da televisão. Era um facto, ninguém comungava o nosso altruísmo. Assistimos solitárias à vitória de Portugal, num bar inglês das ramblas. Aparentemente um dos únicos que passava o nosso jogo.
Dias depois seguiu-se Malta.
Agora já está. Acabaram-se as falsas genuidades e os honrados altruísmos. È cada um por si.
Venham de lá esses Play-offs!
Mas enquanto a nossa selecção não jogava, a Dinamarca jogava por ela e nós apoiávamo-la fervorosamente, de pé, fora do bar, observando o ecrã com atenção.
Não sabemos uma única palavra em dinamarquês, nem o nome de nenhum jogador para poder impressionar. Não temos lá nenhum amigo nem nunca visitámos o país. Mas somos tão altruístas que pulámos, esperneámos e celebrámos o golo dos dinamarqueses tão efusivamente como se fossemos genuinamente de Copenhaga. E esprememos os nervos até ao último segundo da partida, não se fossem os suecos lembrar de marcar nos descontos.
Perdemos o hino de Portugal, mas ganhámos uma mesa só para nós diante da televisão. Era um facto, ninguém comungava o nosso altruísmo. Assistimos solitárias à vitória de Portugal, num bar inglês das ramblas. Aparentemente um dos únicos que passava o nosso jogo.
Dias depois seguiu-se Malta.
Agora já está. Acabaram-se as falsas genuidades e os honrados altruísmos. È cada um por si.
Venham de lá esses Play-offs!
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